Morreu Edgar Morin. Sociólogo e filósofo tinha 104 anos

Morreu Edgar Morin. Sociólogo e filósofo tinha 104 anos

O sociólogo francês, apelidado de "caçador de conhecimento", Edgar Morin morreu na sexta-feira, aos 104 anos. A notícia foi avançada pela viúva do também filósofo judeu laico de esquerda, defensor da causa palestiniana e da epistemologia como ciência global da humanidade.

Inês Moreira Santos - RTP /
Didier Allard via AFP

Morreu aos 104 anos o reconhecido filósofo por nos ensinar que nada é simples. Edgar Morin, o pai do pensamento complexo e uma das mentes brilhantes do último século, foi resistente na juventude e humanista até ao último fôlego e deixa um manual de sobrevivência para o mundo moderno.

"Até aos seus últimos dias, Edgar Morin manteve-se atento ao mundo, aos outros e aos grandes desafios humanos que alimentaram o seu pensamento", referiu a mulher, Sabah Abouessalam Morin, num comunicado citado pela agência de notícias francesa AFP.

O sociólogo francês deixou uma obra diversificada e reconhecida mundialmente, com reflexões originais sobre a humanidade baseadas em dados científicos. O seu trabalho procurou sempre a reflexão sobre o ser humano a partir de dados científicos, promovendo a epistemologia como a verdadeira ciência global da humanidade.

Apresentando-se como um "caçador de conhecimento", recusou sempre a fragmentação do saber, em favor de uma visão cultural e científica multidisciplinar, a fim de enfrentar aquilo que classificava como a "complexidade do real".

Era considerado por muitos dos seus pares como um "pensador planetário", que procurou, através do conceito de "pensamento complexo", conectar o que na "perceção habitual não está ligado".

 

Com assumida inclinação política à esquerda, manteve-se como uma figura proeminente e influente no debate intelectual, com reflexões sobre as mudanças nos estilos de vida da nossa era, impulsionadas pela globalização acelerada.

Edgar Morin considerava que quanto mais graves eram os riscos de crise, maiores eram as hipóteses de encontrar soluções e apresentava-se como um "optipessimista", explicando: "tenho esperança num contexto de desesperança".

Nascido filho único a 8 de julho de 1921 em Paris, numa família judia originária de Salónica, na Grécia, Edgar Nahoum aderiu em 1941 ao Partido Comunista e integrou a Resistência sob o pseudónimo de Morin, apelido que passou a usar como autor.

Entrou em rutura com o comunismo em 1959, tendo escrito a obra "Autocrítica", muito dura para o partido francês, as intervenções soviéticas e os erros políticos.

Precursor da "sociologia do presente", interessou-se por fenómenos pouco estudados pela sociologia como o cinema, novas tecnologias ou desporto.

No quinto volume da sua obra-prima, "O Método", escreve: "Quanto mais conhecemos o ser humano, menos o compreendemos. As dissociações entre disciplinas fragmentam-no, esvaziam-no de vida, de carne, de complexidade e certas ciências consideradas humanas esvaziam mesmo a noção de homem".

Em declarações anteriores à Lusa, numa das suas visitas a Portugal, Morin defendeu a riqueza da multiculturalidade, incluindo de uma lusofonia variada e extensa.

Portugal é "um país extraordinário, que é atlântico e mediterrâneo ao mesmo tempo, ibérico e com ligação ao resto do planeta, com uma vitalidade e convivialidade e cordialidade extraordinária", afirmou.

Causa Palestiniana
Detentor de doutoramentos honoris causa de 38 universidades estrangeiras, escreveu cerca de quarenta livros, muitos dos quais foram traduzidos. Em 2024, ainda publicava quatro livros e continuava a contribuir com artigos de opinião para jornais.

Entre as obras próprias destacam-se uma biografia familiar, "Vidal e Sua Família" (1989, usando o primeiro nome do seu pai), e um texto comovente sobre sua esposa, falecida em 2008, "Edwige, a Inseparável".

Reconhecendo desde cedo a importância das questões ambientais, publicou "Terra-Pátria" em 1992 e, em 2007, "Primeiro Ano da Era Ecológica", um diálogo com Nicolas Hulot.

Como coautor de um artigo de 2002 que afirmava que "os judeus, vítimas de uma ordem implacável, impõem a sua ordem implacável aos palestinianos", foi processado por antissemitismo por duas associações. Ganhou o caso no Tribunal de Cassação, a mais alta corte da França.

Em 2012, debateu com o futuro presidente François Hollande sobre "caminhos para superar a crise da civilização", debate que mais tarde foi publicado em livro.

"O progresso do conhecimento levou a uma regressão do pensamento", escreveu no Le Monde em 2024, conclamando à "resistência da mente".

"Pai de duas filhas adorava fazer compras no centro de Paris, com o boné de marinheiro bem ajustado à cabeça e um sorriso nos lábios, antes de se mudar, aos 97 anos, para Montpellier (sul da França), feliz por “sair ao sol” e “conversar com os vizinhos” (Le Monde, 2019).

 

C/agências

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